A DIMENSÃO TERAPÊUTICA DA COMUNIDADE DE FÉ ATRAVÉS DA POIMÊNICA
Edson Luis Alves dos Santos*
Resumo
Este artigo tem como objetivo apresentar diretrizes da função terapêutica na e da comunidade de fé através da poimênica como ministério da igreja que se preocupa com o bem-estar da comunidade e seus indivíduos. Por fim assegurar o resgate do papel terapêutico através da poimênica como ministério. Sinalizar os caminhos da comunidade de fé terapêutica como lugar de promoção da vida, onde a função preponderante é promover cura, tendo a temporalidade e a esperança como elementos para a compreensão da existência humana.
Palavras-chave: Comunidade de fé, função terapêutica, poimênica, aconselhamento pastoral, saúde.
Introdução
Este trabalho tem por objetivo apresentar caminhos para a comunidade de fé em seu aspecto terapêutico, como promotora de cura, para tratar com vidas que necessitam de uma intervenção terapêutica. Utilizando uma variedade de métodos e ministérios terapêuticos. A comunidade de fé contribuindo para o crescimento e cura das vidas. Associando a poimênica e o aconselhamento pastoral diante das necessidades das pessoas.
* Graduando em Teologia pela Faculdade de Teologia da Universidade Metodista de São Paulo, matrícula 166833. Trabalho de Conclusão de Curso com vistas à obtenção de grau de Bacharel em Teologia, sob a orientação da Profa. Dra. Blanches de Paula – Maio de 2012. Agradeço a minha esposa Francisca Bizarria, pelo companheirismo, amor, respeito, incentivo. Por fazer parte da minha vida, tornar meus dias mais alegres e felizes. Você é um presente na minha vida. Amo-te!
A comunidade opera como um agente terapêutico que através de estudos, práticas e meios adequados é promotora de cura aos enfermos, libertando o homem e a mulher de suas amarras, onde as doenças da alma são as ferramentas de escravidão do ser humano. Para tanto, o texto que se segue está organizado em três seções. A primeira delas apresentará o papel da comunidade de fé na saúde e na cura, apontando os aspectos e caminhos da comunidade terapêutica. Na segunda seção destacaremos as marcas necessárias que atestam o ministério terapêutico na comunidade de fé como lugar de cura, a nível espiritual, físico e social. Na terceira seção a poimênica operante na comunidade de fé abordará: a ressignificação do tradicional aconselhamento pastoral nas áreas espiritual e social, abrindo um diálogo entre a teologia e outras ciências humanas. Pretendemos associar a antropologia teológico-pastoral e os temas da temporalidade e da esperança.
É necessário definir o termo “comunidade”, segundo os dicionários, comunidade é: “1. Qualidade daquilo que é comum. 2. Agremiação. 3. Comuna. 4. Sociedade. 5. Identidade 6. Paridade. 7. Conformidade. 8. Lugar onde vivem indivíduos agremiados”.1 Para Sidnei Vilmar Noé, pensar em comunidade dos iguais pode ser um equivoco, pois a uniformidade no agir, vestir etc., pode fazer com que seus membros percam o contato com a realidade externa, fazendo a comunidade viver em um mundo a parte. A proposta do autor é que a comunidade seja de diferentes, cuja tolerância e aceitação destas diferenças são bem assimiladas e respeitadas por todos, por mais controverso que seja se constrói comunidade a partir deste cenário.
1 DICIONÁRIO da Língua Portuguesa. Lisboa: Priberam Informática, 1998. Disponível em: http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx. Acesso em 20 mar. 2012.
A necessidade de distinção, de demarcar a diferença que permite a constituição de uma identidade própria, não se dá mais através da distinção da comunidade em relação ao resto do mundo, e sim, essa seria deslocada para dentro da própria comunidade. Ali convivem os “diferentes”e eles precisam aprender a se relacionar de forma equilibrada e saudável... isso exige um processo de amadurecimento das pessoas que compõem essa comunidade(HOCH et al,2003, p. 8). Hochet et al(2003, p. 9) afirmam que o termo terapêutico, teologicamente pode ser compreendido como redundante, uma vez que, denominamos nossas comunidades como sendo de Jesus Cristo, obrigatoriamente, esta deveria ser essencialmente terapêutica se olhássemos para seu exemplo.
Devemos buscar o entendimento da palavra “terapêutica” 2. Terapia é uma palavra advinda do grego que significa: “servir a Deus”, ou: “terapêutica”, que significa parte da medicina que estuda e põe em prática os meios adequados para aliviar ou curar os doentes; terapia. Refletindo primeiramente na comunidade como um conjunto de pessoas que se organizam sob o mesmo conjunto de normas, em seguida temos a terapia com o significado de servir a Deus e também tratamento de doenças. Diante disso algumas perguntas surgem para uma reflexão: a igreja deve exercer o papel de uma comunidade terapêutica, com o objetivo de curar pessoas? Poderá proporcionar vida em abundância para as famílias e a sociedade a qual está inserida, sendo uma comunidade que se ajuda mutuamente? Nesse sentido, podemos afirmar que as pessoas desejam a cura de doenças, sejam elas de ordem física, emocional ou espiritual. Portanto, a cura de doenças se constitui na vida e missão da comunidade terapêutica.
As palavras tem significado: algumas delas, porém, guardam sensações. A palavra “comunidade” é uma dessas. Ela sugere uma coisa boa: o que quer que “comunidade” signifique, é bom “ter uma comunidade,” “estar numa comunidade”. Se alguém se afasta do caminho certo, freqüentemente explicamos sua conduta reprovável dizendo que “anda em má companhia”. Se alguém se sente miserável, sofre muito e se vê persistentemente privado de uma vida digna, logo acusamos a sociedade – o modo como está organizada e como funciona. As companhias ou a sociedade podem ser más; mas não a comunidade. Comunidade, sentimos, é sempre uma coisa boa (BAUMAN, 2003, p. 7).
2 DICIONÁRIO da Língua Portuguesa. Lisboa: Priberam Informática, 1998. Disponível em: http://www.priberam.pt/dlpo/Default.aspx. Acesso em 25 abr. 2012.
Como parte integral da comunidade de fé o ministério terapêutico não é uma opção a ser alcançada, mas sim sua missão integral. Como instituição promotora de saúde e cura, a natureza da comunidade de fé confere força terapêutica. Como lugar de promoção da vida o ministério terapêutico não é opcional, mas um compromisso de cuidado abrangente, em todas as dimensões do humano, como a ecologia, a saúde relacional e pessoal.
O ministério terapêutico da comunidade de fé não deve ser visto como algo ocasional, ou então através de eventos esporádicos que alcançam um pequeno número de pessoas. Com a responsabilidade de ser um lugar de promoção da vida, em seu compromisso histórico como comunidade terapêutica, lugar de cura e saúde, questiona-se a comunidade de fé hoje, cumprindo a sua missão de curar os doentes.
Tornamo-nos comunidade terapêutica quando temos a capacidade de socorrer, de estender a mão, oferecer o ombro, de levar a carga uns dos outros empregando a fé como instrumento. Experiência clinica e pastoral indicam que a fé é indispensável no processo terapêutico
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Para Josias Pereira (2010, p. 32-33), a função terapêutica na e da comunidade cristã compreende a ação constante do grupo numa relação de troca que proporciona crescimento constante no cotidiano, e isto se constitui numa necessidade permanente. Daí, podemos admitir com assertividade que a igreja deve ser salugênica. Mas, não é somente à cura das doenças que a terapêutica deve se ater, ela é importante, necessária e até indispensável, mas a caminhada deve ir um tanto além, deve haver preocupação profilática, deve haver uma conduta que procure evitar a doença e promover a saúde.
Evans procura em sua obra posicionar a Igreja como oferecedora de soluções concretas para as questões que envolvem saúde e cura.3 Constata que o ministério terapêutico não é desempenhado a contento pelas comunidades. Comenta ainda: Embora a Igreja ofereça os sacramentos, promova cultos regularmente e pregue a palavra, o quarto sinal da Igreja – a restauração dos enfermos – não tem sido praticado no sentido completo de um ministério terapêutico. Em muitos casos, por causa do medo do abuso, negligenciamos a ordem de Cristo aos seus discípulos para curar os enfermos.
Freqüentemente a cura tem sido totalmente espiritualizada, de modo que sua dimensão física tem sido perdida; mas curar e salvar tem a mesma raiz, e esses conceitos devem ser compreendidos integralmente – cura da mente, do corpo e do espírito. A história desses conceitos transforma-se numa base importante para avaliar práticas atuais de cura e para entender as dificuldades que os cristãos sempre enfrentaram para praticar a ordem de Cristo de sarar os enfermos (EVANS, 2002, p. 21).
O professor Josias Pereira (2010, p. 34-35) escreve sobre a função terapêutica na e da comunidade na revista Caminhando nº 5, citando Jorge A. Léon, em seu livro Psicologia Pastoral de La Iglesia, fazendo referência interessante à igreja como enferma/enfermeira. Na verdade o terapeuta não é uma pessoa perfeita, mas sim que, conhecendo e reconhecendo muitos de seus aspectos doentios, propõe-se desempenhar o trabalho de cura, desenvolvendo, assim, seu potencial salugênico. É exatamente por reconhecer-se doente que a comunidade vai desenvolver o seu potencial em direção à cura, à saúde. Uma comunidade de cura é aquela que reconhece sua realidade patológica e saudável, por isso mesmo, tem experiência suficiente para caminhar em direção à saúde. Ela tem experimentado a dor da enfermidade de tal forma que pode avaliar a importância da saúde. Saúde e doença são dois opostos que coexistem e que só podem ser entendido, um à luz do outro.
3 Para a autora, “cura” tem um significado bem mais amplo da cura meramente física. A autora tem em mente uma compreensão integral de saúde humana que envolve desde aspectos físicos, mentais, espirituais e sociais. Quando o texto se refere apenas ao físico, a autora utiliza a expressão “cura física”.
Embora a comunidade esteja sujeita a enfermidades, doenças, adversidades ela atua como agente de cura, física, espiritual e social.
Discernindo autênticos ministérios terapêuticos
A comunidade de fé relevante é aquela que vive plenamente sua missão terapêutica produzindo, cura perdão e reconciliação, apresentando as marcas ministeriais. Essas marcas ministeriais produzem condições terapêuticas.
O acolhimento é um ministério na comunidade de fé terapêutica funcionando como primeiro serviço.
À medida que entendemos que a igreja é uma comunidade terapêutica, uma comunidade da poimênica, que “presta assistência” promove cura e possibilita crescimento, então é certo dizer que também cabe ao pastor a tarefa de treinar a igreja nessa vocação, a fim de que seus membros desenvolvam na prática a verdade do „sacerdócio universal de todos os santos‟, sendo ministros uns dos outros. “O papel do pastor consiste em treinar, inspirar e supervisionar as pessoas leigas no ministério de poimênicas destas” (CLINEBELL, 1987, p. 33).
Clinebell lembra que enquanto pessoas não reconhecem a graça de Deus em suas vidas o Evangelho não pode tornar-se uma realidade viva para elas.
A poimênica e o aconselhamento podem ser formas de comunicar o Evangelho na medida em que ajudam essas pessoas a abrir-se para um relacionamento curativo. Enquanto não tiverem experimentado amor imerecido e aceitador num relacionamento humano, o Evangelho não pode tornar-se uma realidade viva para elas. Enquanto não tiverem sido atingidas por aceitação solicita (que é o correlativo humano, sempre limitado, da graça de Deus) num encontro de pessoa para pessoa, a boa-nova da mensagem cristã não pode tornar-se uma realidade experimentada e libertadora para elas. Relacionamentos de ajuda são lugares onde pode ocorrer essa encarnação da graça – limitada e fragmentária, porém transformadora (WACHHOLZ, 2010, p. 213).
O livro Aconselhamento Pastoral: modelo centrado em libertação e crescimento, de Howard J. Clinebell traz desafios para uma vivência curadora na comunidade de fé que denomina poimênica como o cuidado pastoral da comunidade, ou mesmo de conselheiros leigos para com pessoas que precisam de aconselhamento.
O conselheiro é hermeneuta por excelência. A ele cabe a tarefa de interpretar. Palmer entende que a interpretação tem três significados: 1) interpretar é enunciar em palavras, ou seja, dizer; 2) é também tornar algo inteligível ou claro, ou seja, explicar; 3) e finalmente, é transpor de uma língua para outra, ou seja, traduzir (PALMER, 1989, p.24). Esses três significados podem ser verificados também no aconselhamento pastoral. Ao conselheiro cabe a tarefa de dizer algo, como também explicar algo incompreensível e ainda traduzir – nesse caso, geralmente traduzir no sentido mais simbólico, isto é, transmutar, por exemplo, medos, angústias, tristezas, de forma que façam sentido e possam ser vencidos (WACHHOLZ, 2010, p. 203).
Sathler-Rosa (2004, p. 44-47) descreve quatro prioridades que Goodliff compreende como prioridade para o cuidado pastoral no contexto contemporâneo.
1) Fazer da comunidade cristã um ambiente vital do cuidado pastoral, para tanto, é necessário a atenção do pastor e da pastora para promover elos de confiança como prioridade para o desenvolvimento da solidariedade;
2) Criar saúde relacional: os relacionamentos correm sérios riscos de contaminação por conta das ideologias competitivas, o padrão cultural da competitividade contribui para a destruição dos relacionamentos salutares, como ato de preservação, deve-se cultivar: a comunicação clara e honesta; o ouvir ativo; a fidelidade; a confiança; assumir o risco de aprofundar o relacionamento; o perdão e a aceitação do outro; e assumir responsabilidades pessoais;
3) Nutrir e sustentar a fé: o trânsito religioso promove o sincretismo e diante desta realidade surge à necessidade de manter as raízes bem referenciadas sem correr o risco perdê-las;
4) E por fim a cura das feridas da alma: são de causas depressivas e de ansiedade exagerada, episódios de pânico, de auto-estima, processos de lutos não elaborados, dificuldades ligadas à área sexual além de outros confrontos da pessoa com sua natureza e identidade, seu lugar no mundo e aceitação, seja pessoal ou por outras pessoas.
O desenvolvimento da preocupação das Igrejas Protestantes com um ministério de saúde origina-se em John Wesley, que influenciou o desenvolvimento das missões médicas. No início do século XVIII ele combinou um evangelismo espiritual com um evangelho social baseado nas necessidades humanas, incluindo o cuidado da saúde. Saúde era uma das grandes preocupações, considerando que a Inglaterra registrou a mais alta taxa de mortalidade de sua história naquele período.
Wesley foi um dos principais pastores/teólogos que notaram o relacionamento complementar entre religião e saúde. Ele entendeu que o cuidado com a saúde estava vinculado ao estilo de vida. Em 1746 fundou a primeira farmácia gratuita da Inglaterra. Seu Primitive Physic era um livro cheio de orientações práticas sobre dieta, exercício, sono e outros elementos básicos de cuidado com a própria saúde. O fundador do Metodismo acreditava que o amor de Deus ajuda a manter as paixões em seus devidos limites.
Tranqüilidade poderia contribuir para a saúde e uma vida longa. “Não é mero acidente que os mais marcantes aumentos no padrão de saúde pública tenham coincidido com a influência crescente do movimento de reavivamento”. Por liderar o caminho de ajuda aos pobres sofredores que tinham sido negligenciados pela profissão médica, Wesley se tornou um pioneiro do movimento nacional de saúde. Pode-se dizer o mesmo da Igreja de hoje? (EVANS, 2002, p. 51).
Para Kohl et al (2006, p. 112), “[...] as igrejas relevantes deste século serão aquelas que tiverem como filosofia de ministério o objetivo de se desenvolverem como comunidade terapêutica, como parte de sua missão integral”.
Há de se dizer que a igreja, com todas as suas falhas, tem se tornado a única opção de relacionamentos terapêuticos dentro de uma sociedade secularizada e insensível para com as necessidades do outro. Nossa sociedade sofre de uma grande dificuldade em estabelecer relacionamentos saudáveis e profundos.
Poderíamos dizer que mesmo a família, para muitos, já não oferece um ambiente de ajuda e alívio, de modo que as esperanças de muitos vão se canalizando para aquelas igrejas que possuem uma proposta terapêutica de vida em comunidade, que de alguma forma responda às necessidades mais básicas do ser humano.
Não seria exagero afirmar, a partir de algumas observações pessoais, que algumas pessoas só recebem um abraço, ou um beijo, na sua comunidade local e em nenhum outro local, sendo que ali tais pessoas se sentem valorizadas e por isso ali permanecem. Os estudos a respeito da relação membro-igreja têm mostrado que os membros permanecem numa determinada igreja local mais pelos relacionamentos e menos pela confissão doutrinária, ainda que esta última tenha a sua importância na vida de qualquer cristão. Em função disso, as igrejas que conseguirem desenvolver um ambiente que gere relacionamentos profundos e saudáveis estarão à frente para se tornarem relevantes nesse mundo pós-moderno (KOHL et al, 2006, p. 122-123).
Portanto, as comunidades de fé terapêuticas são espaços encontrados onde a manifestação e o desenvolvimento de relacionamentos interpessoais saudáveis produzem vida, edificação, refrigério, um lugar seguro, de refúgio e encorajamento.
A poimênica operante na comunidade de fé
A comunidade terapêutica busca, através da poimênica, ressignificar o aconselhamento pastoral nas áreas espiritual, física e social, abrindo um diálogo entre a teologia e outras ciências humanas, buscando juntar respostas a várias patologias do séc. XXI, chamadas também de doenças deste século.
Poimênica é o ministério amplo e inclusivo de cura e crescimento mútuos, dentro de uma congregação e de sua comunidade, durante todo o ciclo da vida. Aconselhamento Pastoral, que constitui uma dimensão da poimênica, é a utilização de uma variedade de métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as pessoas a lidar com seus problemas e crises de uma forma mais conducente ao crescimento e, assim, a experimentar a cura do quebrantamento (CLINEBELL, 1987, p. 25).
As mudanças ocorridas nas formas de expressar a religião têm alterado a aplicação da poimênica. É necessário reler a hermenêutica da poimênica para uma melhor compreensão e sua aplicação.
Sathler-Rosa acompanhando Lester cita que a temporalidade humana deve ser considerada como fundamento da antropologia teológica. Trata-se da consciência do tempo como elemento fundamental do contexto existencial humano. Vivemos uma condição de multiplicidade: temos um passado, um presente e um futuro. Existência autêntica implica reconhecer os fatos do nosso passado, viver com a liberdade que nos é dada em nosso presente e, ao mesmo tempo, abrir o caminho para as possibilidades que se descortinam para o futuro.
A contínua busca de compreensão da existência humana exige de cuidadores e de cuidadoras pastorais um conhecimento da pessoa na perspectiva das três dimensões do tempo. Indagações do tipo “abre portas”, tais como : “que melhores lembranças trazes de teu passado?”;”E as mais desagradáveis?”; “Que sonhos animam hoje tua vida?”; “Como vês o futuro?” podem estimular as pessoas a narrarem suas histórias. Nos termos de Lester:
Compreender a nós mesmos plenamente é lembrar nossa temporalidade, é lembrar que em nosso tempo presente estamos cercados pelo tempo passado e pelo tempo futuro.
O cuidado pastoral e o aconselhamento com pessoas contaminadas por ausência de esperança envolvem ajudá-las a avaliar sua atitude para com cada dimensão do tempo (SATHLER-ROSA, 2010, p. 257).
Farris (2005, p. 181) em sua resenha do cuidado pastoral em tempos de insegurança de Sathler-Rosa destaca elementos de importância fundamental unindo o individual e o social. “...as quatro prioridades para o cuidado pastoral no contexto contemporâneo: (1) construir uma comunidade cristã, (2) criar a saúde relacional, (3) curar a alma ferida e (4) nutrir e suster a fé”.
Portanto a temporalidade e a esperança fazem parte de toda a orientação no aconselhamento pastoral e da prática do cuidado pastoral diante das doenças e adversidades, entendendo que esperança não é algo passivo.
A esperança está associada à outra experiência humana: a fé [...] A fé, como a esperança, não é a previsão do futuro; é a visão do presente num estado de gravidez. (SATHLER-ROSA, 2010, p. 253).
No livro Aconselhamento Pastoral Clinebell diz assim: É importante que nós, aconselhadores pastorais, nos vejamos dentro da longa e rica herança da poimênica (que em grego significa poimen, pastor). Quando se engajam em poimênica e aconselhamento com pessoas atribuladas, os pastores estão andando nas pegadas de uma longa fila de pastores sensíveis e dedicados que se estendem, através dos séculos, até um jovem carpinteiro judeu cujas palavras e cujo toque trouxeram cura e crescimento para pessoas atribuladas no primeiro século de nossa era. Ele caminhou nas pegadas dos “sábios guias” de sua tradição religiosa. Nos primeiros séculos da história da igreja, a poimênica era chamada de “cura d‟almas”. Cura (do latim cura) significava, em alguns casos, “curar”, mais freqüentemente, cura significava “cuidar. Tanto cura quanto crescimento estava incluído no significado desta palavra (VALENTE, 1995. p.22).4 Clinebell (1987, p. 14-15) propõe que é necessária a retomada da Igreja como Comunidade Terapêutica, através de uma ação atuante da poimênica e do aconselhamento pastoral.
Podendo ser ferramentas de cura e crescimento das pessoas em direção ao desenvolvimento mais profundo dos relacionamentos diante da realidade de uma cultura que predomina a superficialidade interpessoal. Esclarece ainda: A poimênica e o aconselhamento pastoral compreendem a utilização, por pessoas que exercem o ministério, de relacionamentos de indivíduo para indivíduo ou de pequeno grupo para possibilitar a ocorrência de potencialização curativa e crescimento dentro de indivíduos e de seus relacionamentos.
Poimênica é o ministério amplo e inclusivo de cura e crescimento mútuos dentro de uma congregação e de sua comunidade, durante todo o ciclo da vida. Aconselhamento pastoral, que constitui uma dimensão da poimênica, é a utilização de uma variedade de métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as pessoas a lidar com seus problemas e crises de uma forma mais conducente ao crescimento e, assim, a experimentar a cura de seu quebrantamento.
As pessoas precisam de poimênica durante a vida toda (CLINEBELL, 1987, p. 24-25). Ronaldo Sathler-Rosa (apud PAULA, 2011, p. 184-185), teólogo metodista brasileiro, afirma que o cuidado pastoral tem amplas possibilidades de fomentar a dignidade humana e nutrir a auto-estima de forma comunitária. Pode-se dizer que a importância do cuidado pastoral para a vida da comunidade de fé é vital para a saúde nos relacionamentos das pessoas entre si.
Portanto, cuidar do individuo é essencial, mas não é suficiente! É preciso cuidar da “casa”, dos sistemas que estruturam a vida das pessoas em sociedade, das múltiplas interações do ser humano. É ação pastoral direcionada a sistemas. Em sua fase de conhecimento da situação, a ação pastoral identifica distorções, desequilíbrios, injustiças que sejam obstáculos para a vida plena, para a cura e para a paz. É a dimensão da “denúncia profética”. Então proclama as Boas-Novas por meio da Palavra e da participação na busca de alternativas. É a dimensão do anúncio. É voz profética nos domínios públicos, estatais, institucionais. O cuidado pastoral enraíza-se na esperança e na confiança de que é possível a mudança e fazer “novas todas as coisas” (Apocalipse 21.5) mediante ações das comunidades de fé e seus “cuidadores pastorais”(PAULA, 2011, p. 185).
4 Para uma história da poimênica, veja MC NEILL, J.T. A Historyofthe Cure of Souls.New York: Harper & Brothers, 1951.
Por isso, o cuidar pastoral é uma ação que produz interação, anúncio profético, identificação, busca de alternativas, que ajuda as pessoas a mudanças de vida no sentido mais amplo; é a utilização de uma variedade de métodos e práticas terapêuticas para a saúde integral através da proclamação das boas novas.
Considerações finais
O artigo escrito tem um conteúdo indicativo e relevante para a poimênica e o aconselhamento pastoral como ministério operante da comunidade de fé
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A mensagem central do texto foi apontar caminhos para reafirmar a dimensão terapêutica através da comunidade de fé, cumprindo sua missão como lugar de bem-estar da comunidade e de seus indivíduos.
Como desafio, entendemos que é possível como comunidade de fé assistir nossa sociedade que carece de referenciais acolhedores. É preciso fazer de nossas comunidades de fé, espaço de acolhimento, ajuda e cura, exercendo o potencial existente como ministério terapêutico, capacitando tanto os aconselhadores como os leigos a exercerem tal ministério.
As diretrizes apontadas neste artigo, não se comparam ao potencial existente em cada comunidade de fé, como Clinebell diz, precisamos liberar o potencial que existe dentro de nós, disponibilizando tempo, espaço e o servir.
A comunidade cristã, mesmo sendo uma fonte terapêutica não poderá e nem deverá ser a única a cumprir este papel, não esgotamos o tema, muitas outras fontes e pesquisas podem ser feitas a partir desta, por exemplo: aprofundar a dimensão terapêutica das igrejas locais, colaborando assim com a saúde integral das pessoas em sociedade; capelania hospitalar centrada na poimênica; com estas considerações, reafirmamos que uma comunidade de fé terapêutica relevante, é aquela comunidade que vive plenamente sua missão terapêutica promovendo cura, perdão e restauração.
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